Conto: Lembranças na Contramão
- Ainda é difícil aceitar isso, né?
- Sim, às vezes a vida é muito irônica e cruel. Não imaginava perder ele daquela forma.
- Pois é, ninguém imaginava, mas a gente vive numa cidade perigosa e muito hostil para pessoas como seu pai.
- Lembro, como se fosse ontem, da primeira bicicleta Caloi que ele me deu quando completei 11 anos. A gente tava na praia e foi ali que dei as minhas primeiras pedaladas.
- É, também lembro. Você caiu umas três vezes. O tio Carlos já tava ficando impaciente, mas depois você pedalava até sem uma das mãos.
- Realmente! É muito doloroso cruzar a Paulista com a Peixoto Gomide e lembrar que foi aqui que o meu pai, um ciclista tão experiente, morreu atropelado por um motorista bêbado na contramão.
Um dos primos levanta e termina de tomar sua última cerveja. Ainda meio tonto, pega a chave do carro e vai embora. Na sua cabeça perturbada, somente lembranças correndo no sentido contrário e um último desejo.

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